Organizadores/Docentes: Professora Eunice Prudente, Professor Gustavo Monaco, Professora Maria Angélica Fernandes, Professor Silvio Gabriel Serrano Nunes, Professor André Galindo, Ana Lívia Vilhena Ramos, Ana Luísa Schmidt, Cristine Gleyser, Fernando Pereira, Filippo Yasson Ferreira Pugliesi, Helena Alonso Alves e Maria Fernanda Cordeiro Crisóstomo
Carga Horária Total: 02 horas
Data: 19/11
Horário: 15h às 17h
Dia da semana: Quinta-feira
Modalidade: Online
Público-alvo: Todos os cidadãos, especialmente estudantes, que demonstrem, mediante inscrição, interesse por relações internacionais, política internacional, política externa brasileira, história e diplomacia, bem como por pesquisa acadêmica - sem a exigência de formação específica ou experiências profissionais prévias.
Eixos temáticos:
Objetivos de aprendizagem
O ciclo Relações Internacionais para não-internacionalistas é uma das atividades propostas pela área Acadêmica do Laboratório Diplomático da USP (LaD - USP), em conjunto com a Escola Superior de Gestão e Contas Públicas (ECG), voltada à introdução aos fundamentos teóricos e metodológicos do campo das Relações Internacionais (RI), articulando-os à trajetória histórica e geopolítica da Política Externa Brasileira (PEB).
A atividade visa introduzir e discutir, de maneira acessível e aplicada, as principais teorias clássicas da disciplina, o Realismo, o Liberalismo e o Construtivismo, além de metodologias básicas de pesquisa e posicionamento autônomo do Brasil no contexto internacional. Pretende-se desmistificar o vocabulário de RI e capacitar os participantes a interpretar acontecimentos globais contemporâneos e a diplomacia brasileira com rigor analítico, superando análises meramente intuitivas.
Espera-se que os participantes sejam capazes de compreender as premissas teóricas da ação internacional, identificar métodos de pesquisa aplicados (estudo de caso, análise documental e de política externa) e reconhecer os marcos históricos, as tradições diplomáticas
e os condicionantes geopolíticos que moldaram a inserção do Brasil no mundo. Pretende-se, ainda, que compreendam como o país articula suas prioridades, e posições, em temas como soberania, integração regional, multilateralismo e desenvolvimento.
Ao longo dos encontros, que poderão contar com a participação de professores e especialistas convidados, os participantes desenvolverão a capacidade de estabelecer pontes entre conceitos teóricos, ferramentas de pesquisa e a prática diplomática brasileira. Busca-se também estimular a leitura crítica de documentos oficiais, tratados e cenários de conjuntura internacional.
Ao final do ciclo, espera-se que os participantes sejam capazes de aplicar os quadros conceituais de RI para analisar crises globais e, simultaneamente, contextualizar historicamente as escolhas estratégicas da política externa brasileira em um sistema internacional em transformação.
Competências a serem desenvolvidas
Ao final da atividade, os membros deverão ser capazes de:
O participante que acompanhar integralmente o curso compreenderá como o sistema internacional se estrutura e como Estados, em especial o Brasil, atuam sob lógicas de cooperação, conflito, barganha e interdependência.
Por meio das exposições, dos debates e das contribuições de docentes convidados, será possível relacionar a teoria às decisões práticas da diplomacia brasileira, no contexto da Política Externa Brasileira (PEB) e no contexto, compreendendo limites, riscos e oportunidades da nossa inserção geopolítica.
Espera-se também o desenvolvimento de competências voltadas à compreensão do desenho de pesquisa em Relações Internacionais, capacitando o aluno a formular perguntas analíticas consistentes, delimitar objetos de estudo e reconhecer a aplicação adequada de abordagens qualitativas e quantitativas à análise da política internacional e da política externa.
Adicionalmente, busca-se aprimorar a argumentação fundamentada e a precisão conceitual na discussão de temas internacionais, permitindo que mobilizem esse repertório em seus respectivos contextos acadêmicos e profissionais.
Por fim, fomenta-se um ambiente interdisciplinar de aprendizagem, conectando participantes de diferentes formações ao debate introdutório e qualificado sobre os desafios internacionais contemporâneos e a posição do Brasil no mundo.
Justificativa
As transformações geopolíticas do século XXI tornam as dinâmicas internacionais e as decisões de política externa cada vez mais determinantes para os rumos do país, influenciando setores como economia, meio ambiente, tecnologia, direito e políticas públicas. Compreender o funcionamento do sistema internacional e a forma como o Brasil se posiciona geopoliticamente tornou-se essencial não apenas para internacionalistas, mas para cidadãos e profissionais de múltiplos campos.
Contudo, o estudo de RI é frequentemente percebido como difícil, repleto de jargões acadêmicos, ou tratado de forma superficial por análises conjunturais sem ancoragem histórica e teórica. Da mesma forma, nos cursos de graduação de outras áreas, há uma carência notável de disciplinas que abordem, de forma estruturada, as teorias internacionais e a evolução histórica e geopolítica da diplomacia brasileira.
Diante dessa lacuna, a Área Acadêmica do LaD propõe o curso Relações Internacionais para não-internacionalistas como uma plataforma acessível de formação. Ao combinar teoria clássica, métodos de pesquisa e a análise concreta da trajetória da Política Externa Brasileira, o curso oferece aos alunos uma ferramenta introdutória sólida para decifrar a ordem global e a atuação do país.
A previsão de professores convidados reforça a pluralidade de perspectivas e conecta os participantes à experiência de pesquisadores que pensam e pesquisam a inserção internacional do Brasil.
Assim, o curso justifica-se por democratizar o instrumental analítico de RI, preencher a distância entre teoria, história diplomática e prática empírica, e qualificar o debate público e interdisciplinar a partir da universidade.
Metodologias
A atividade será estruturada em encontros regulares, realizados às quintas-feiras no horário das 15h às 17h, totalizando carga horária síncrona 10h.
O primeiro bloco do curso, compreendendo os dois encontros iniciais, será dedicado à introdução às teorias clássicas das Relações Internacionais, abordando o Realismo, o Liberalismo e o Construtivismo.
O terceiro encontro será voltado à metodologia científica aplicada à área, com foco no desenho de pesquisa, formulação de hipóteses e delimitação do objeto de estudo.
Os encontros finais serão dedicados à Política Externa Brasileira (PEB), dividindo-se entre a análise de sua evolução e contexto histórico de tradições diplomáticas e, em seguida, o exame de seus condicionantes geopolíticos contemporâneos.
As exposições serão conduzidas por membros pós-graduandos da Área Acadêmica do Laboratório Diplomático da USP (LaD - USP), contando também com a participação pontual de docentes e pesquisadores convidados para enriquecer o debate e contextualizar a aplicação dos conceitos.
A metodologia prioriza práticas colaborativas e ativas de aprendizagem, utilizando o recurso da sala de aula invertida e da microaprendizagem (microlearning) para estruturar conteúdos conceituais e ferramentas metodológicas complexas em unidades didáticas acessíveis a participantes sem formação prévia no campo.
Após as apresentações teóricas e metodológicas de cada sessão, serão propostas questões orientadoras que conduzirão debates abertos e mediados entre todos os participantes, estimulando a troca de perspectivas e a reflexão crítica fundamentada.
A metodologia também contempla a utilização de estudos de caso sob uma perspectiva metodológica aplicada à pesquisa científica em Relações Internacionais, permitindo aos participantes exercitar a seleção de casos empíricos, a operacionalização de variáveis e
conceitos teóricos, bem como a delimitação e a testagem de hipóteses sobre a inserção internacional e a política externa do Brasil.
Essa abordagem busca estimular o protagonismo dos participantes, promover a construção coletiva do conhecimento e aproximar o rigor conceitual das Relações Internacionais das diversas áreas de atuação acadêmica e profissional dos cursistas.
Por fim, a assiduidade, a participação ativa nos debates poderão ser adotadas como critérios de avaliação e acompanhamento para fins de certificação pelo Laboratório Diplomático da USP.
Conteúdo Programático
Eixo II | Metodologia de Pesquisa em Relações Internacionais
Encontro 3 – Metodologia de Pesquisa em RI: Desenho de Pesquisa e Análise de Conteúdo
Objetivo do encontro: Introdução à lógica do desenho de pesquisa e apresentação da Análise de Conteúdo como uma metodologia aplicável às Relações Internacionais.
Leitura obrigatória:
OLIVEIRA, Lucy. O texto, o dado e o analista: a Análise Mista de Conteúdo na produção da Ciência Política. In: ENCONTRO DA ABCP, 14., 2024, Salvador. Anais do 14º Encontro da ABCP. Salvador: Associação Brasileira de Ciência Política, 2024. Disponível em: https://www.abcp2024.sinteseeventos.com.br/anais/trabalhos/lista.
OLIVEIRA, Lucy; VIEIRA, Eduardo Pagnan. (2024). Análise textual e abordagens qualitativas em Ciência Política: práticas combinadas e aproximações. In: Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política. Brasília: Enap. Cap. 9.
Leitura complementar:
BARDIN, Laurence. (2009). Análise de conteúdo. Edições 70.
SAMPAIO, Rafael Cardoso; LYCARIÃO, Diógenes. (2021). Análise de conteúdo categorial: manual de aplicação. Brasília: Enap. Cap. 1 (a partir da p. 14) e Cap. 2, “Manual da AC” (a partir da p. 45).
KING, Gary; KEOHANE, Robert O.; VERBA, Sidney. (1994). Designing Social Inquiry: Scientific Inference in Qualitative Research. Princeton: Princeton University Press.
Tópicos para discussão:
? Atividade de sondagem e apresentação
? Apresentação dos ministrantes
? Apresentação dos participantes: (a) Nome; (b) Trajetória; (c) Interesse no curso; (d) Objeto de pesquisa.
? Desenho de pesquisa: da pergunta ao caso (Oliveira, 2024; Sampaio; Lycarião, 2021; King; Keohane; Verba, 1994)
? PERGUNTA ? TEORIA ? HIPÓTESES ? OBSERVAÇÃO ? EVIDÊNCIA ? INFERÊNCIA ? LIMITES
? Da pergunta analítica à hipótese: como transformar um tema em uma pergunta que pode ser respondida com evidências;
? Produzindo inferências válidas: descrição ou causalidade (Keohane, 2009);
? Pesquisa quantitativa vs. pesquisa qualitativa: qual metodologia responde a qual pergunta?
? A escolha do caso, do período e do material empírico como decisões de desenho;
- O texto como dado na área de Ciência Política e Relações Internacionais, e a ampliação recente do uso de ferramentas computacionais para coletar, tratar e analisar textos em grande escala;
- O que é Análise de Conteúdo: da “hermenêutica controlada” (Bardin, 2009) aos procedimentos sistemáticos, públicos e intersubjetivamente validados (Sampaio e Lycarião, 2021);
- Conteúdo, sentido e campo semântico: como as palavras de um texto permitem inferir sentidos de uma comunicação;
- Análise de conteúdo como metodologia: o ambiente lexical como porta de entrada para a análise ao lado da análise de documentos e de imagens.
- Conceituação e desenho: definição dos documentos, da unidade de análise, dos indicadores e do dicionário de categorias (pertinência);
- Coleta: obtenção sistemática dos documentos, por download direto ou raspagem automatizada (exaustividade);
- Preparação dos dados: do documento ao corpus, com conversão, limpeza, uniformização, segmentação e lematização (preservação da originalidade);
- Reestruturação analítica: categorização, parametrização e aplicação das análises (transparência);
- Análise e inferência: o papel do pesquisador e o lugar das ferramentas de inteligência artificial generativa (fidelidade e replicabilidade).
- Confiabilidade da codificação: validação por pares, índices de confiabilidade e validação intersubjetiva;
- Livro de códigos e banco de dados disponíveis como condição para a replicação da pesquisa;
- Ferramentas abertas e fechadas: linguagens de programação e seus pacotes (R, Python) e softwares (IRaMuTeQ, MAXQDA, entre outros), com ou sem aprendizagem de máquina;
- Como escolher a ferramenta: a relação entre a pergunta de pesquisa, o volume de texto e a replicabilidade.
- Pesquisas desenvolvidas em DECOS como exemplificação;
- Dúvidas e comentários.
Avaliação
Formativa:
Busca identificar o progresso da aprendizagem dos participantes ao longo dos módulos, por meio do acompanhamento contínuo das discussões, da apreensão dos fundamentos metodológicos e da articulação entre as teorias clássicas e a prática diplomática. Considera-se especialmente a evolução na capacidade de estruturar perguntas de pesquisa, aplicar conceitos analíticos a estudos de caso e compreender os determinantes históricos e geopolíticos da Política Externa Brasileira.
Avaliação dialógica e participativa:
Baseada na presença, no engajamento e na qualidade das intervenções nos debates. Será valorizada a capacidade de dialogar com os fundamentos teóricos apresentados, formular questões metodológicas consistentes e relevantes, relacionar o conteúdo à realidade internacional contemporânea e contribuir ativamente para a construção coletiva do conhecimento em um ambiente interdisciplinar.
Bibliografia Básica
CERVO, Amado Luiz. Inserção internacional: formação dos conceitos brasileiros. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
CERVO, Amado Luiz. Política exterior e relações internacionais do Brasil: enfoque paradigmático. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, v. 46, n. 2, p. 5–25, 2003. DOI: https://doi.org/10.1590/S0034-73292003000200001.
CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. 4. ed. rev. e ampl. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 2012.
GUIMARÃES, Feliciano de Sá. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Contexto, 2021.
OLIVEIRA, Lucy. O texto, o dado e o analista: a Análise Mista de Conteúdo na produção da Ciência Política. In: ENCONTRO DA ABCP, 14., 2024, Salvador. Anais do 14º Encontro da ABCP. Salvador: Associação Brasileira de Ciência Política, 2024. Disponível em: https://www.abcp2024.sinteseeventos.com.br/anais/trabalhos/lista.
OLIVEIRA, Lucy; VIEIRA, Eduardo Pagnan. (2024). Análise textual e abordagens qualitativas em Ciência Política: práticas combinadas e aproximações. In: Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política. Brasília: Enap. Cap. 9.
Bibliografia Complementar
BARDIN, Laurence. (2009). Análise de conteúdo. Edições 70.
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva; VIDIGAL, Carlos Eduardo. História das Relações Internacionais do Brasil. Coordenação de Antônio Carlos Lessa e Henrique Altemani de Oliveira. São Paulo: Saraiva, 2015.
KING, Gary; KEOHANE, Robert O.; VERBA, Sidney. (1994). Designing Social Inquiry: Scientific Inference in Qualitative Research. Princeton: Princeton University Press.
NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais: correntes e debates. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
SAMPAIO, Rafael Cardoso; LYCARIÃO, Diógenes. (2021). Análise de conteúdo categorial: manual de aplicação. Brasília: Enap. Cap. 1 (a partir da p. 14) e Cap. 2, “Manual da AC” (a partir da p. 45).
SATO, Eiiti. Política externa do Brasil desde a redemocratização: evolução, mudanças e perspectivas futuras. Intelligere, Revista de História Intelectual, n. 10, p. 70–90, 2020. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2447-9020.intelligere.2020.180231.
SNYDER, Jack. One world, rival theories. Foreign Policy, n. 145, p. 52–62, 2004.
SPEKTOR, Matias. O projeto autonomista na política externa brasileira. In: MONTEIRO NETO, Aristides (org.). Política externa, espaço e desenvolvimento. Brasília: Ipea, 2014. p. 19–60.
VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A política externa brasileira: a busca da autonomia, de Sarney a Lula. São Paulo: Editora UNESP, 2011.
VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A política externa de Lula da Silva: a estratégia da autonomia pela diversificação. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 29, n. 2, p. 273–335, 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-85292007000200002.
VIGEVANI, Tullo; RAMANZINI JÚNIOR, Haroldo. Autonomia, integração regional e política externa brasileira: Mercosul e Unasul. Dados, Rio de Janeiro, v. 57, n. 2, p. 517-552, 2014.
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WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. International Organization, v. 46, n. 2, p. 391–425, 1992.
Parceria:
O Laboratório Diplomático da USP (LaD) é uma atividade extensionista curricularizada (AEX) vinculada à Comissão de Cultura e Extensão (CCEX
de São Paulo (FDUSP). Criado por estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e aberto a participantes externos, o grupo é coordenado pelo professor titular de Direito Internacional Privado da FDUSP, Gustavo Ferraz de Campos Monaco.
Entre as iniciativas realizadas pelo LaD, destacam-se:
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados ao curso: