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 *Luis Eduardo Morimatsu Lourenço

A escola histórica alemã consolida-se como tendência e movimento autoconsciente nas últimas duas décadas do século XVIII e perpassa todo o século XIX como verdadeira força motriz da intelligentsia alemã, permanecendo como uma das correntes dominantes no interior da Universidade alemã até as primeiras décadas do século XX, pelo menos. De fato, é possível dizer que tal tendência se enraizou na mentalidade alemã de tal forma que, não por acaso, o século XIX alemão é considerado por muitos como o “século da história”.

 

 

Em verdade, uma breve menção a alguns dos maiores representantes desta corrente já oferece a dimensão do movimento ora em pauta: Herder, Willhelm von Humboldt, os irmãos Grimm, Mommsen, Leopold von Ranke, Savigny, Droysen, Niebuhr, List, Schmöller, entre tantos outros, são todos nomes ligados ao seu desenvolvimento.

Duas características essenciais permitem compreender a escola histórica alemã como tendência unitária:

1. A pretensão de oferecer uma metodologia própria às ciências humanas e sociais que se distancie da pretensão, muito em voga à época, de emular os métodos das ciências naturais quando do estudo da realidade sócio histórica efetiva e que, na mesma medida, também ofereça uma alternativa mais coerente e empiricamente fundada em relação às diversas filosofias da história especulativas (especialmente a hegeliana e o progressismo iluminista). Neste sentido, será importante a distinção entre o método explicativo, típico das ciências naturais, e o método compreensivo, mais adequado às ciências do espírito.

2. A rejeição de modelos abstratamente concebidos, com pretensão de universalidade, quando da compreensão da realidade efetiva. De fato, a escola histórica pretenderá destacar as particularidades inerentes de cada cultura, em sua unidade de costumes, valores e sentido próprios, culturas estas que, ademais, não poderiam ser julgadas em sentido de maior ou menor valor em relação umas às outras. Por óbvio, a pretensão de se elencar uma série de valores universalmente válidos (tradição Jusnaturalista, por exemplo) acaba por ser alvo de crítica, nesta esteira.

Iniciemos com o segundo ponto em questão. Já é costumeiro destacar, no interior da Escola Histórica, três grandes subdivisões: a Escola Histórica de Historiografia, a Escola Histórica de Direito e a Escola Histórica de Economia nacional. Estas duas últimas são exemplos privilegiados de como o movimento pretende se afastar dos esquemas abstratamente concebidos, isto é, do racionalismo abstrato com pretensão de universalidade (universalismo axiológico).

Senão vejamos: a Escola Histórica de Economia Nacional – verdadeiramente dominante na universidade germânica - se opunha à pretensão da economia liberal clássica em conceber modelos econômicos formalmente concebidos que pudessem ser aplicados indistintamente a qualquer nação. Modelos e diretrizes econômicas deveriam ser concebidas à luz das particularidades de cada nação, de seus costumes, crenças, valores, níveis de industrialização, enfim, tendo em vista suas características singulares. Justamente por este motivo, também era corriqueira entre os membros desta corrente a critica ao individualismo metodológico.  Em geral, também se opunham à axiomatização de modelos econômicos em nível formal: a investigação histórico-genética - e não a matemática – seria o método mais apropriado a guiar a Economia, o que não significa, ressalte-se, o total desprezo pelos métodos quantitativos. De fato, o uso de estáticas é presente em trabalhos de economistas ligados a esta corrente. Entre os representantes desta tradição econômica é possível destacar Roscher, Schmoller e Büchner. Discute-se, ainda, em que medida pode-se classificar Weber e Sombart como representantes tardios da escola histórica alemã.

A escola histórica de Direito, cujo maior representante é Savigny, procura, por sua vez, buscar as raízes do direito nas crenças, costumes e mentalidade geral de um povo – dai a importante noção de Volksgeist -. Neste sentido, Savigny se opunha à tradição do jusnaturalismo e das codificações racionalmente concebidas inspiradas pela crença na possibilidade de se alcançar um plano de universalidade de valores. O espírito do povo (Volksgeist) se objetivaria nas mais diversas áreas da cultura: daí a importante contribuição da escola histórica no estudo da dimensão da cultura popular (por exemplo, na compilação dos contos populares pelos irmãos Grimm; não por acaso, o termo Folk intimamente ligado ao termo alemão Volk) e nos estudos de linguagem comparada (a tese de Wilhelm von Humboldt, por exemplo, de que línguas diferentes condicionam apreensões diferentes da “realidade”), só para citar alguns notórios exemplos.

Mas o fato é que, cronologicamente, a escola histórica se consolida primeiramente no interior da Historiografia, mais especificamente a partir da pretensão em se estabelecer um método próprio aos estudos históricos que se distancie do positivismo de Comte, Spencer, Taine e Stuart Mill e que, na mesma medida, se afaste de qualquer filosofia da história universalizante e especulativa: por exemplo, aquelas que concebiam a história como o progresso da razão e/ou da liberdade (iluminismo e hegelianismo, por exemplo). A história não é uma objetivação de um sentido único compreensível, mas sim o desfilar de culturas diversas, fechadas, com horizontes de significação próprios.

Nesta busca de uma metodologia própria no interior da historiografia, uma importante distinção é estabelecida: enquanto nas Ciências Naturais (Naturwissenchaften) se busca explicar (Erklären) os fatos, isto é, estabelecer relações puramente causais entre eventos a partir de leis gerais, a História deveria buscar, antes, compreender (Verstehen) o sentido (Bedeutung) das objetivações humanas. O pioneirismo deste importante insight cabe à Johann Gustav Droysen, figura chave da tradição historicista alemã.

A afirmação de Beiser, neste sentido, é bastante incisiva:

Há outro aspecto a partir do qual Droysen moldou e determinou a direção e desenvolvimento da tradição historicista. Em sua resistência ao positivismo, Droysen se opôs ao paradigma da explicação mediante leis gerais, e empreendeu grande esforço para desenvolver modelos e métodos alternativos de explicação. O resultado foi seu famoso método compreensivo, o qual é frequentemente tido como o principal paradigma alternativo ao método nomotético característico das ciências naturais. Dilthey é frequentemente tido como o pai do método compreensivo, ou, no mínimo, o método é geralmente associado ao seu nome. Décadas antes dele, porém, Droysen já havia estabelecido o método compreensivo como o método historiográfico mais pertinente (...)

Prossegue Beiser:

Embora Dilthey talvez seja mais conhecido por sua hermenêutica e seu método compreensivo, o crédito quando do desenvolvimento destes pertencem mais propriamente à Droysen, como já vimos. A crítica da razão histórica tem, entretanto, uma pretensão e créditos de maior originalidade e importância histórica.

Tamanho o impacto desta distinção para a cultura alemã, que restou por ser discutida por figuras do porte de Dilthey, Simmel, Tönnies, Windelband, Rickert, Weber, Gadamer, entre outros.

Evidentemente, há uma série de fatores de ordem sociológica que devem ser considerados quando desta pretensão: provavelmente o mais importante dele seja o nacionalismo germânico crescente, diante das invasões francesas (é preciso lembrar que a Alemanha somente foi unificada em 1871, sob pesada liderança prussiana).
BEISER, 2011, pp. 242.343. Tradução nossa.
Ibidem, p. 379

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Referências
BEISER, Frederick. The German historicist tradition. Oxford: Oxford University Press, 2011.
IGGERS, Georg. The German concept of History. Middletown: Wesleyan University Press, 1983.
MEINECKE, Friedrich. El Historicismo y Su Genésis. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica, 1943.
SCHNÄDELBACH, Herbert. Philosophy in Germany 1831-1933. Londres: Cambridge University Press, 1984.
SHIONOYA, Yuichi (Ed.). The German Historical School. Londres: Routledge, 2001.
____________________. The Soul of the German Historical School. Berlim: Springer Verlag, 2005

 

*Luis Eduardo Morimatsu Lourenço, Doutorando em Filosofia (CAPES) pela PUC-SP, Mestre em Filosofia e Especialista em Direito Constitucional pela PUC-SP e Professor da Escola de Gestão e Contas Públicas Conselheiro Eurípedes Sales do Tribunal de Contas do Município de São Paulo.



Os artigos aqui publicados não refletem a opinião da Escola de Contas do TCMSP e são de inteira responsabilidade dos seus autores.


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