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Jornal do Brás. Ano XXIV. Nº238. 1ªquinzena de outubro de 2013. P.7
*Marisa Moura Verdade

Saúde é um bem precioso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) a define como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças.

Comer bem é essencial para uma existência sadia – no que se refere à quantidade, qualidade e variedade dos alimentos. No entanto, uma avalanche de informações sobre nutrição confunde e complica o ato de comer.  Como selecionar a melhor dieta? Há varias implicações na escolha dos alimentos, principalmente a exclusão de grupos como carnes, laticínios, gorduras ou carboidratos, sem as devidas substituições, o que ocasiona carências nutricionais e distúrbios da conduta alimentar. Algumas pessoas adoecem psicologicamente quando assumem a busca de uma dieta mais salutar e natural. Por conta própria, restringem a seleção dos alimentos e privam o corpo de nutrientes importantes. Seu conceito de comida “saudável” não segue padrões científicos, parte de informações disponíveis nas redes sociais e nos meios de comunicação de massa. Frequentemente, o conjunto dessas informações é confuso e incompleto, comprometido com a divulgação de dietas “milagrosas”, que purificam o corpo e a alma. Alguns se tornam obcecados pelo assunto, desenvolvendo uma espécie de mania por alimentação saudável.

A obsessão por dietas saudáveis foi descrita pela primeira vez pelo médico americano Steven Bratman, em artigo publicada em 1997, configurando um distúrbio da alimentação denominado ortorexia nervosa. O termo corresponde a duas palavras gregas: “orthos”, - que significa correto, apropriado -, e “orexia” – apetite.  A obsessão por alimentos saudáveis pode seguir motivações inocentes: às vezes, é agenciada pelo desejo de aliviar uma doença crônica com dieta curativa; outras, a intenção é simplesmente melhorar a saúde em geral. Como é preciso muita força de vontade para adotar uma dieta que difere radicalmente dos hábitos alimentares da infância e da cultura circundante, poucos realizam mudanças dessa natureza sem altos custos psicossociais. A autodisciplina e a autoafirmação sempre são exaltadas, promovendo uma sensação de superioridade em relação aos “comedores de porcarias” - pizzas, cachorro-quente, salgadinhos, sorvete etc. Deslizes na alimentação purificadora impõem atos de penitência, levando a restrições e jejuns mais e mais rigorosos. O depoimento de ortoréxicos sugere que a busca da “dieta perfeita” adquire um sentido de “espiritualidade alimentar”, capaz de dominar completamente a vida interior do paciente.

Preocupação com boa alimentação não prejudica ninguém.  No caso dos ortoréxicos, a mania de alimentação saudável – natural, orgânica, livre de agrotóxicos e pesticidas - desequilibra a saúde física, mental e social. O preparo das refeições e o ato de comer tendem a ser ritualizados, afastando os entes queridos e inibindo os prazeres da mesa. O maior perigo deste quadro comportamental é a anemia, em vista da exclusão de nutrientes contidos em alimentos considerados impuros por naturalistas radicais. Quando a preocupação com a alimentação afeta as atividades profissionais, impede o lazer ou prejudica relacionamentos interpessoais, é hora de buscar ajuda profissional.  Parentes e amigos costumam sinalizar a patologia e a necessidade de terapia. O tratamento é multidisciplinar: avaliação clínica e medicação, psicoterapia e educação nutricional adequada. 


*Marisa Moura Verdade é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo & FAPESP). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 


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