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Por ¹Amândio Martins

Demolição ou recuperação e implantação de um parque linear?

Nasci e vivi durante 30 anos na zona leste da capital paulista. Mais da metade da minha vida. Precisamente em uma das principais vias de acesso à zona leste. Cerca de cem metros do Cemitério da Penha. Na Avenida Amador Bueno da Veiga.
Nada fácil. Durante todos esses anos meus horários de repousar e despertar não me pertenciam. Quem os ditava eram os veículos que por lá transitavam. Ônibus, carros de passeios e caminhões. Buzinadas, freadas, aceleradas e todos os roncos da mecânica disponíveis. Desacelerações e acelerações, sobretudo dos ônibus, dominavam o som ambiente. Pudera... Quem tinha o privilégio de possuir dois pontos de ônibus na porta de casa, não tinha do que reclamar. Um para o sentido extremo leste e o outro para o centro da cidade. Reclamar de quê, não é mesmo?

A poluição sonora era desprezível se comparada a poluição do ar. Por essa razão quando me perguntam se já fumei na vida digo que sim, sem nunca antes ter levado um cigarro se quer à boca. Fui um fumante passivo!

Meus pais mantinham ali um comércio. Um dos maiores daquelas paragens. No entanto, o desenvolvimento comercial da avenida existia no trecho inicial dela. Exatamente onde ficava nosso saudoso comércio. Um pouquinho mais à frente era interrompido graças à presença de um equipamento que somente aos mortos pertencia.  

E assim se passaram trinta anos, cuja vantagem maior em morar ali era ter o privilégio do transporte coletivo à frente de casa.

Escrevo este artigo não para falar da avenida da zona leste paulistana, mas de outra via com características ‘parcialmente’ semelhantes. E o faço na condição de ter tido a amarga experiência de residir um uma avenida de intenso tráfego de veículos. Fato que me possibilita entender quando e quanto os proprietários de imóveis e moradores vociferam contra a existência de monumental via elevada. Bem como daqueles, embora apenas usuários, se preocupam como será a vida se a via deixar de existir. E caminha para isso!

Desejo propor uma reflexão sobre o destino que será dado a uma obra suis generis da engenharia brasileira: o Minhocão, a maneira como é conhecida a Via Elevada Presidente Costa e Silva, responsável pela ligação Leste-Oeste desta continental cidade.

Inaugurada em 1971 no aniversário de 417 anos da cidade de São Paulo, portanto há 44 anos, o viaduto de 3,5 km de extensão em pura estrutura de concreto, executado em catorze meses, homenageia um dos presidentes do período da ditadura, General Artur da Costa e Silva.

Rasgou o centro da cidade, ‘passando por cima’ de importantes ruas. Na ocasião prometia a solução do trânsito que naquele tempo já se mostrava problemático. É tido como certo que a solução proposta foi copiada de cidades da Europa, Ásia e EUA.

Por onde o Minhocão passou deixou um rastro de problemas. As janelas dos apartamentos dos edifícios da Avenida Amaral Gurgel fica há poucos metros da via elevada, acarretando elevação da temperatura, poluição visual e sonora bem como a perda de privacidade.

O entorno decaiu a partir de sua inauguração. Por conta das condições impostas acarretando a estagnação do desenvolvimento local. Com isso os imóveis desvalorizaram e a região foi se degradando numa de espiral viciosa.
Assim, como o Cemitério da Penha colaborou para a ‘quase morte’ de trecho da avenida do bairro da Penha de França, o Minhocão proporcionou o mesmo com a região dos Campos Elíseos.

Após cinco anos de sua inauguração, a prefeitura foi obrigada a fechar seu uso durante a noite. À medida que o tempo passou os problemas também foram aumentando. Atualmente, de segunda a sábado, das 6h30 às 21h30 – período permitido ao tráfego de veículos automotores – passam por lá mais de 70.000 veículos. Congestionamento nestes dias, como se diz no jargão popular, é mato, em cima e em baixo da via elevada! Aos domingos o acesso é vedado.

Com todos estes problemas é natural que grupos de interesses distintos apareçam para reivindicar cada um seu quinhão na solução.

O importante é a solução definitiva para a cidade e para a maioria dos cidadãos. Uma coisa é certa: até 2029, segundo preconiza o Plano Diretor aprovado pela Câmara Municipal, gradativamente o Minhocão não deverá mais ser utilizado como via de trânsito. Então deverá ser demolido ou transformado em via parque. São estas as duas hipóteses.

Aí esta o ‘x’ da questão! Como fazê-lo? A palavra chave deve ser PLANEJAMENTO. Há pela frente 14 anos para pensar e agir com sabedoria. Anos estes que passam voando!

As posições destes grupos devem ser discutidas sem paixão, mas com razão. Nenhuma proposta deve de ser descartada, mas todas devem ser analisadas à exaustão.

Devemos considerar que a nossa cidade é como um jogo de xadrez: qualquer movimentação sem um grande pensar com antecedência pode ser um xeque-mate à região. Em outras palavras, poderá travar de vez nosso sistema viário, cujo transito é caótico e frágil.

Um dado é importante: na segunda metade de maio de 2015 a frota de veículos da cidade chegou à marca de 8.000.000 de veículos, ou seja, quase 2 habitantes/veículo, superando a média de Nova York que é de 4 habitantes/veículo e da Cidade do México, cujo transito é tão caótico quanto o nosso com média de 2,2 habitantes/veículo.

Pesar os prós e os contras de cada possibilidade pode parece simples, mas não é. Mas, pode ser um começo.

Que tal começarmos?

Outras indagações devem ser levantadas e postas à discussão e ação, para que a megalópole chamada São Paulo não tenha data para parar: 2029! Como cidadão e cidadã desta cidade convido-os a participar complementando esta lista de prós e contras.

¹AMÂNDIO MARTINS é Graduado em engenharia Civil pela FAAP e pós-graduado em Administração pelo Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia. Leciona na Escola Superior de Gestão e Contas Públicas Conselheiro Eurípedes Sales.

SOLUÇÃO PROPOSTA PRÓS CONTRA
DEMOLIÇÃO /REMOÇÃO

Devolver o desenvolvimento à região

Valorização dos imóveis

Devolver a qualidade de vida às pessoas que moram ao longo da via

Custo da demolição

Custo ambiental

Onde utilizar ou descartar os resíduos oriundos da demolição?

O entorno tem condições de absorver o volume de veículos que transitam sob e sobre a via elevada?

Os governos (Federal, Estadual e Municipal) estão dispostos a investir nos próximos anos recursos em infraestrutura viária e de transporte coletivos?

TRANSFORMAR EM PARQUE LINEAR (com ou sem VLP – Veículo Leve sobre Pneus)

Oferecer um novo parque à cidade

Redução da temperatura da região em razão da vegetação

Paisagismo pode auxiliar na valorização dos imóveis

Com VLP: oferecer transporte coletivo de média capacidade, movido por energia alternativa não poluente (em horário reduzido) à população.

Será que o modelo vislumbrado que é o da High Line de Nova York serve para uma estrutura igual ao do Minhocão? Surtiria o mesmo efeito?

Serão necessários altos investimentos para recuperar a estrutura de concreto degradada

A região recuperará o desenvolvimento?

Os imóveis junto ao Minhocão serão valorizadas novamente?

Os moradores dos edifícios terão suas privacidades recuperadas?

Qual destino dos baixos da via?

Comentários

0 # Wagner Jorge 17-12-2015 09:30
Boa analise da situação.

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